EDITORIAL
Nota de Paul Augusto de Souza Nogueira
Na reunião do comitê editorial de RIBLA em
junho de 1998 foi decidido que a revista
dedicaria um número especial ao Apocalipse de
João. Este número deveria ter como eixo de
interpretação o Apocalipse de João como parte
de uma religiosidade e espiritualidade mais ampla,
de expectativa de mudança das estruturas do
mundo e de libertação dos seres humanos
oprimidos. A esperança de que o mundo está para
ser reformado, de que Deus atuará em favor do
seu povo, de que não só a história, mas a
própria criação está para ser transformada
manifesta-se especialmente através de visões e
de êxtases. Se os conteúdos destas visões são,
em muitos momentos, relacionados aos poderes que
dominam as pessoas e os povos, pareceu-nos que os
intermediários deste saber e as formas como são
dadas aos visionários apocalípticos têm certa
autonomia na sua linguagem. Trata-se de um mundo
de experiência altamente estruturado e que
devemos estudar com muita atenção para que o
texto bíblico não seja transformado em um mero
reflexo de nossa própria linguagem religiosa,
como se nossa forma de ver o mundo fosse a única.
Trata-se de uma experiência religiosa autêntica
de judeus do período inter-testamentário e que
continuou a influenciar e determinar o mundo dos
primeiros cristãos, no primeiro século.
É verdade também que nas religiosidades
populares latino-americanas, principalmente entre
os setores pentecostais da religiosidade latino-americana,
existe uma grande apropriação e recriação dos
símbolos e dos conteúdos da apocalíptica
judaico-cristã, principalmente tal como
desenvolvidos no Apocalipse de João. Estudar o
Apocalipse de João como experiência fundante
para amplos setores da religiosidade da América
Latina pode-nos ajudar a dialogar com mais
profundidade com estes grupos religiosos que, de
uma maneira ou outra, buscam ressignificar,
senão transformar a realidade em que vivemos.
Os artigos deste número estão organizados da
seguinte forma: a) textos que introduzem à
experiência religiosa extático-visionária do
profeta João e que consideram esta experiência
como fundamental para a compreensão da mensagem
do livro (José Adriano, Néstor Míguez, Paulo
Nogueira); b) textos que desenvolvem uma análise
do Apocalipse, levando em conta estes elementos,
em maior ou menor intensidade, pricipalmente em
artigos que analisam textos que abordam a luta
contra a opressão que se abatia sobre estes
cristãos e suas transformações almejadas no
milênio (Pedro Vasconcellos, Sandro Gallazzi,
José Adriano, Pablo Ferrer) e c) textos que nos
ajudam a criar pontes com o nosso mundo, um mundo
no qual as expectativas do Apocalipse ainda fazem
sentido (Gabriel Cornelli, Jorge Rodríguez).
Esperamos que estes textos ajudem as comunidades
religiosas das mais diferentes origens e credos a
fazerem suas experiências com o texto do
Apocalipse de João, refletindo o milênio, em um
final de milênio. a
ARTIGOS
José Adriano Filho - O Apocalipse de João como
relato de uma experiência visionária.
Anotações em torno da estrutura do livro, 7
Néstor O. Míguez - João de Patmos, o
visionário e sua visão, 90
Paulo Nogueira - Êxtase visionário e culto no
Apocalipse de João - Uma análise de Apocalipse
4 e 5 em comparação com viagens celestiais da
apocalíptica, 45
Pablo M. Ferrer - A marca da besta, 69
Pedro Lima Vasconcellos - A vitória da vida:
Milênio e reinado em Apocalipse 20 1-10, 79
Sandro Gallazzi - Sem mar, sem templo e sem
lágrimas (Apocalipse 21-22), 93
José Adriano Filho - Caos e recriação do
cosmos. A percepção do Apocalipse de João, 99
Gabriel Cornelli - As pragas últimas... e as de
todo dia - O poder cósmico e o poder cotidiano
no livro do Apocalipse e na literatura comparada,
120
Jorge Luís Rodríguez Gutiérrez - Apocalipse,
130
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