RIBLA 34
APOCALIPSE DE JOÃO E A MÍSTICA DO MILÊNIO
Código: 037540

EDITORIAL

Nota de Paul Augusto de Souza Nogueira

Na reunião do comitê editorial de RIBLA em junho de 1998 foi decidido que a revista dedicaria um número especial ao Apocalipse de João. Este número deveria ter como eixo de interpretação o Apocalipse de João como parte de uma religiosidade e espiritualidade mais ampla, de expectativa de mudança das estruturas do mundo e de libertação dos seres humanos oprimidos. A esperança de que o mundo está para ser reformado, de que Deus atuará em favor do seu povo, de que não só a história, mas a própria criação está para ser transformada manifesta-se especialmente através de visões e de êxtases. Se os conteúdos destas visões são, em muitos momentos, relacionados aos poderes que dominam as pessoas e os povos, pareceu-nos que os intermediários deste saber e as formas como são dadas aos visionários apocalípticos têm certa autonomia na sua linguagem. Trata-se de um mundo de experiência altamente estruturado e que devemos estudar com muita atenção para que o texto bíblico não seja transformado em um mero reflexo de nossa própria linguagem religiosa, como se nossa forma de ver o mundo fosse a única. Trata-se de uma experiência religiosa autêntica de judeus do período inter-testamentário e que continuou a influenciar e determinar o mundo dos primeiros cristãos, no primeiro século.

É verdade também que nas religiosidades populares latino-americanas, principalmente entre os setores pentecostais da religiosidade latino-americana, existe uma grande apropriação e recriação dos símbolos e dos conteúdos da apocalíptica judaico-cristã, principalmente tal como desenvolvidos no Apocalipse de João. Estudar o Apocalipse de João como experiência fundante para amplos setores da religiosidade da América Latina pode-nos ajudar a dialogar com mais profundidade com estes grupos religiosos que, de uma maneira ou outra, buscam ressignificar, senão transformar a realidade em que vivemos.

Os artigos deste número estão organizados da seguinte forma: a) textos que introduzem à experiência religiosa extático-visionária do profeta João e que consideram esta experiência como fundamental para a compreensão da mensagem do livro (José Adriano, Néstor Míguez, Paulo Nogueira); b) textos que desenvolvem uma análise do Apocalipse, levando em conta estes elementos, em maior ou menor intensidade, pricipalmente em artigos que analisam textos que abordam a luta contra a opressão que se abatia sobre estes cristãos e suas transformações almejadas no milênio (Pedro Vasconcellos, Sandro Gallazzi, José Adriano, Pablo Ferrer) e c) textos que nos ajudam a criar pontes com o nosso mundo, um mundo no qual as expectativas do Apocalipse ainda fazem sentido (Gabriel Cornelli, Jorge Rodríguez).

Esperamos que estes textos ajudem as comunidades religiosas das mais diferentes origens e credos a fazerem suas experiências com o texto do Apocalipse de João, refletindo o milênio, em um final de milênio. a


ARTIGOS

José Adriano Filho - O Apocalipse de João como relato de uma experiência visionária. Anotações em torno da estrutura do livro, 7

Néstor O. Míguez - João de Patmos, o visionário e sua visão, 90

Paulo Nogueira - Êxtase visionário e culto no Apocalipse de João - Uma análise de Apocalipse 4 e 5 em comparação com viagens celestiais da apocalíptica, 45

Pablo M. Ferrer - A marca da besta, 69

Pedro Lima Vasconcellos - A vitória da vida: Milênio e reinado em Apocalipse 20 1-10, 79

Sandro Gallazzi - Sem mar, sem templo e sem lágrimas (Apocalipse 21-22), 93

José Adriano Filho - Caos e recriação do cosmos. A percepção do Apocalipse de João, 99

Gabriel Cornelli - As pragas últimas... e as de todo dia - O poder cósmico e o poder cotidiano no livro do Apocalipse e na literatura comparada, 120

Jorge Luís Rodríguez Gutiérrez - Apocalipse, 130