RIBLA 33
JUBILEU
Código: 037451

EDITORIAL
Nota de Haroldo Reimer

Hoje, às vésperas do ano 2000, todos falam em jubileu. Jubileu tornou-se símbolo para um grande e multiforme processo de reflexão sobre o modo de organizar a nossa vida, a nossa sociedade, a nossa fé, a nossa espiritualidade e a nossa visão do futuro. Jubileu é um convite no horizonte, que quer animar para uma nova caminhada. Em nome do jubileu promovem-se as práticas mais distintas. No fundo, é a Palavra do Deus vivo, que, no horizonte da vida, acena para um novo caminhar...

Os tempos atuais desafiam e motivam para ler e reler os textos da Bíblia que falam do jubileu e dos tempos jubilares. Há desafios e discussões que levam a isso. E a Palavra de Deus pode orientar na busca por novas sendas e caminhos e na construção de uma espiritualidade renovada.

São muitos os desafios do mundo atual, neste fim de século e de milênio. Há uma série de binômios que caracterizam o curso de nossa história moderna e há as questões desafiadoras cronicamente emergentes: trabalho/desemprego, empréstimos/submissão, endividamento de pessoas e povos/perdão de dívidas, crise ecológica/descanso da terra, etc. Há também outras palavras-chave que continuadamente ocupam a pauta das discussões. Termos como “globalização”, “exclusão social”, “neoliberalismo”, “leis de mercado”, “competitividade” estão em pauta. São temas que marcam a vida da gente. São temas conflitivos na pauta atual. Em um mundo marcado pela concorrência, pela competição, pela marginalização e pela exclusão, anseia-se pelo júbilo de um “jubileu”.

Mulheres e homens, e até crianças, grupos, igrejas cristãs e organismos ecumênicos estão trazendo o tema do jubileu para a pauta de discussões neste crepúsculo milenar. De forma especial, o Papa João Paulo II, em sua encíclica Tertio Milennio Adveniente, de 1996, retomando tradição antiga, convocou a Igreja Católica para celebrar um jubileu no ano 2000. Paralela ou concomitantemente, outras igrejas buscam trilhar caminho similar. Quer-se buscar redescobrir o vigor dessa tradição e incentivar para uma reflexão profunda na virada do milênio e dar novos ímpetos para a evangelização. As Conferências Episcopais, em vários países, assumiram esta causa e a ampliaram para abrigar temas emergentes da vida e da realidade latino-americana. O tema das relações de endividamento e escravidão de pessoas e até de povos inteiros volta à cena, devido justamente à urgência da problemática. Começam a circular cada vez mais documentos de estudo, cartilhas, livros e, sobretudo, petições e abaixo-assinados solicitando aos países ricos do mundo o perdão de dívidas impagáveis. Em nível micro, organizações ligadas às lutas populares, sobretudo organizações não-governamentais (ONGs), buscam ensaiar na prática formas de vida alternativas e ecologicamente corretas e sustentáveis. Busca-se conviver (mais) sabiamente com a criação/natureza. Busca-se (re)acender a utopia de uma vida diferente e melhor. Nisso muitas pessoas do povo e até povos inteiros servem de inspiração. Mas também a Palavra do Deus da vida quer animar.

Diante deste quadro do crepúsculo milenar, reler e meditar os textos sagrados que falam sobre um jubileu e sobre tempos jubilares pode alimentar a espiritualidade e a prática de muitas pessoas cristãs. Pessoas, grupos e até igrejas são alentadas no seu viver e animadas no seu viver e caminhar diante de tais questões desafiadoras e discussões dos tempos atuais.

Neste volume de RIBLA, biblistas de vários países de nossa América Latina e do Caribe oferecem a sua contribuição para o estudo do tema. Trata-se de trabalhos exegéticos, reflexões e subsídios sobre os textos da Bíblia que tratam do tema do jubileu e dos tempos jubilares. Com este número de RIBLA, dedicado a este importante tema na virada do milênio, gostaríamos de ajudar pessoas e grupos a se inspirar no vigor da fonte que é a Palavra de Deus contida na Bíblia. Em num mundo apresentado como “sem utopias”, urge redescobrir a força utópica e (re)criadora da Palavra de Deus como indicadora de um mundo possível e sempre aberto para o novo-verdadeiro.


ARTIGOS

Pablo Richard – Já é tempo de proclamar um jubileu – Sentido geral do jubileu na Bíblia e no contexto atual, 7

Jorge Pixley – O sábado – Festa e sinal, 23

Haroldo Reimer – Um tempo de graça para recomeçar – O ano sabático em Êxodo 21,2-11 e Deuteronômio 15,1-18, 33

Marli Wandermurem – A lei do ano sabático. Para que pobres achem o que comer – Um estudo de Êxodo 23,10-11, 51

Sandro Gallazzi – Jubileu: aqui e agora!, 64

José Severino Croatto – Do ano jubilar levítico ao tempo profético de libertação – Reflexões exegéticas sobre Isaías 61 e 58 em relação com o jubileu, 81

Carmiña Navia Vvelasco – Um ano jubilar. Perspectiva urbana, 104

Jacir de Freitas Faria – Perdão e nova aliança. Proposta jubilar de Jeremias 31,23-34, 112

Ivoni Richter Reimer – Perdão de dívidas em Mateus e Lucas. Por uma economia sem exclusões, 133

Sandra Nancy Mansilla – Um jubileu na era da pós-modernidade - Sobre a necessidade de uma hermenêutica permanente. Leitura do discurso programático de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,14-30), 150

Frank Pimentel – A práxis das comunidades cristãs no começo do novo milênio – Uma leitura comunitária e atualizante de Atos 2, 161

Samuel Almada – A preparação do caminho para o jubileu e seus mártires, 180

Marcelo Barros – “Escutem a trombeta do Espírito” – Para vivermos uma espiritualidade do jubileu, 192