RIBLA 31
A CARTA DE TIAGO
Código: 037010

EDITORIAL
Nota de Uwe Wegner

Este número de RIBLA tem por assunto a cidadania. Este termo é empregado na atualidade para expressar uma série de reivindicações, direitos e tarefas que, geralmente, se cristalizam em dois momentos básicos:

a)no conjunto de direitos dos cidadãos e cidadãs, como os direitos à moradia, alimentação e subsistência básica, educação, trabalho, saúde, etc., e

b)na convicção de que tais direitos, em regra, mesmo que assegurados por lei, pouco são cumpridos na prática, requerendo do conjunto das pessoas e da sociedade uma participação ativa para sua efetiva implementação.

Cidadania torna-se, desta forma, um termo de cunho eminentemente social e político, já que é no seio da sociedade, das suas cidades e bairros, que os direitos inalienáveis das pessoas serão defendidos ou rejeitados. “Cidadania” é também, simultaneamente, uma palavra de alto significado teológico, pois que se compatibiliza perfeitamente com os reclames de solidariedade e justiça defendidos pelas Escrituras Sagradas do AT e NT.

Vários autores e autoras se dispuseram a contribuir na abordagem do assunto:

Como artigo introdutório, apresenta-se uma reflexão intitulada “Bíblia e cidadania”, da autoria de Roberto E. Swetsch. O autor traça as relações existentes entre cidadania e modernidade, apontando para a importância da democracia e participação em sociedades com ideologias neoliberais. Biblicamente, ressalta o direito e a justiça como valores imprescindíveis da cidadania segundo o AT. Quanto ao NT, trata-se de viver cidadania “à medida da estatura de Cristo” (Ef 4,13), defendendo e vivendo valores como os da partilha e da dignificação de tudo o que é humilde, fraco e sem valor (1Cor 1,26-28).

A contribuição de L.J. Dietrich versa sobre “Cidadania: resgatar a liberdade de ser”. O agir político é ambivalente: pode tanto abrir espaços de participação, como também tolher liberdades, centralizando o poder e despolitizando o cotidiano. O artigo mostra como estas duas possibilidades estiveram presentes na história de Israel e no movimento deflagrado por Jesus e pelas primeiras comunidades apostólicas. A proposta vai no sentido de construir uma nova política a partir do concreto, que represente as cidades em que vivemos, com toda a multiplicidade dos seus desafios e possibilidades.

A contribuição de Haidi Jarschel oferece um estudo interpretativo de um único texto, a saber, Gn 38, ou seja, a história de Tamar e Judá. A autora aponta para os vários meios e mecanismos através dos quais as mulheres eram marginalizadas e excluídas da casa patriarcal nos tempos do AT. Simultaneamente são destacadas também algumas formas de resistência que, por meio de sabedoria e subversão, garantiam às mulheres os meios de sobrevivência e uma existência digna.

Nancy C. Pereira analisa os textos de milagres no ciclo de Eliseu (2Rs 2-13), destacando a luta pela vida e sobrevivência de crianças, mulheres e comunidades que neles é tematizada. A religiosidade popular que caracteriza tais histórias dá testemunho de um conhecimento de conjuntura e de uma profunda sabedoria, embasados por uma mística em que o natural e o humano não deixam de ter transparência para o sobrenatural e o sagrado.

Sobre a “Resistência popular nos primórdios da monarquia israelita” reflete Carlos A. Dreher. Sob enfoque são colocados o período do reinado de Davi e o período imediatamente posterior à morte de Salomão. Rei e povo viviam uma relação contratual, em que eram estabelecidos direitos e deveres de cada um. Os conflitos surgiam quando e na medida em que tais obrigações contratuais deixavam de ser cumpridas. A insatisfação popular desembocou com a ascensão de Roboão. O autor procura aclarar tanto as causas, como também o desenrolar das crises mencionadas, mostrando que o povo de Israel não deixava impunes os governantes que descumpriam com seus votos de cidadãos.

No ensaio sobre “O aspecto político da hermenêutica”, de Jorge Pixley, são apresentados comentários sobre a dimensão política da interpretação da Bíblia, com consideração especial sobre três aspectos: 1) o aspecto político na composição dos textos; 2) a dimensão política na interpretação de textos bíblicos, e 3) o aspecto político de toda interpretação bíblica cristã.

Este número termina com a contribuição sobre “Aspectos da cidadania no movimento de Jesus e nas primeiras comunidades apostólicas”. Seu autor, Uwe Wegner, oferece um estudo sobre as bases neotestamentários da cidadania evangélica, bem como sobre vários pressupostos para uma participação efetiva na construção de uma nova sociedade fraterna à luz de textos sinóticos e paulinos.


ARTIGOS

Cristina Conti – Proposta de estruturação da carta de Tiago, 7

José Severino Croatto – A carta de Tiago como escrito sapiencial, 24

Francisco Reyes A. – A lei do Reino: uma exigências de vida plena - Uma aproximação antropológica e simbólica à carta de Tiago, 43

Frank Pimentel – Cobiça, resistência e projeto alternativo - Uma aproximação sociolingüística à carta de Tiago, 67

Néstor O. Míguez – Ricos e pobres: relações de clientela na carta de Tiago, 84

Paulo Nogueira – A dignidade do pobre numa sinagoga cristã da diáspora - Um exemplo de seguimento da Torá no cristianismo primitivo, 97

Leif E. Vaage – Cuidado com tua boca - A palavra indicada, uma subjetividade alternativa e a formação social dos primeiros cristãos segundo Tiago, 108

Gabriel Cornelli - Os pés da esperança - O poder mágico da oração em Tiago 5,13-18, 120

Pedro Lima Vasconcellos - Os indigentes e o reino: Tiago e a recriação de sentenças de Jesus, 135

José Adriano Filho - O pobre e o rico em Tiago e no Pastor de Hermas, 143