EDITORIAL
Nota de Uwe Wegner
Este número de
RIBLA tem por assunto a cidadania. Este termo é
empregado na atualidade para expressar uma série
de reivindicações, direitos e tarefas que,
geralmente, se cristalizam em dois momentos
básicos:
a)no conjunto de direitos dos cidadãos e
cidadãs, como os direitos à moradia,
alimentação e subsistência básica, educação,
trabalho, saúde, etc., e
b)na convicção de que tais direitos, em regra,
mesmo que assegurados por lei, pouco são
cumpridos na prática, requerendo do conjunto das
pessoas e da sociedade uma participação ativa
para sua efetiva implementação.
Cidadania torna-se, desta forma, um termo de
cunho eminentemente social e político, já que
é no seio da sociedade, das suas cidades e
bairros, que os direitos inalienáveis das
pessoas serão defendidos ou rejeitados.
Cidadania é também, simultaneamente,
uma palavra de alto significado teológico, pois
que se compatibiliza perfeitamente com os
reclames de solidariedade e justiça defendidos
pelas Escrituras Sagradas do AT e NT.
Vários autores e autoras se dispuseram a
contribuir na abordagem do assunto:
Como artigo introdutório, apresenta-se uma
reflexão intitulada Bíblia e
cidadania, da autoria de Roberto E. Swetsch.
O autor traça as relações existentes entre
cidadania e modernidade, apontando para a
importância da democracia e participação em
sociedades com ideologias neoliberais.
Biblicamente, ressalta o direito e a justiça
como valores imprescindíveis da cidadania
segundo o AT. Quanto ao NT, trata-se de viver
cidadania à medida da estatura de
Cristo (Ef 4,13), defendendo e vivendo
valores como os da partilha e da dignificação
de tudo o que é humilde, fraco e sem valor (1Cor
1,26-28).
A contribuição de L.J. Dietrich versa sobre
Cidadania: resgatar a liberdade de
ser. O agir político é ambivalente: pode
tanto abrir espaços de participação, como
também tolher liberdades, centralizando o poder
e despolitizando o cotidiano. O artigo mostra
como estas duas possibilidades estiveram
presentes na história de Israel e no movimento
deflagrado por Jesus e pelas primeiras
comunidades apostólicas. A proposta vai no
sentido de construir uma nova política a partir
do concreto, que represente as cidades em que
vivemos, com toda a multiplicidade dos seus
desafios e possibilidades.
A contribuição de Haidi Jarschel oferece um
estudo interpretativo de um único texto, a saber,
Gn 38, ou seja, a história de Tamar e Judá. A
autora aponta para os vários meios e mecanismos
através dos quais as mulheres eram
marginalizadas e excluídas da casa patriarcal
nos tempos do AT. Simultaneamente são destacadas
também algumas formas de resistência que, por
meio de sabedoria e subversão, garantiam às
mulheres os meios de sobrevivência e uma
existência digna.
Nancy C. Pereira analisa os textos de milagres no
ciclo de Eliseu (2Rs 2-13), destacando a luta
pela vida e sobrevivência de crianças, mulheres
e comunidades que neles é tematizada. A
religiosidade popular que caracteriza tais
histórias dá testemunho de um conhecimento de
conjuntura e de uma profunda sabedoria, embasados
por uma mística em que o natural e o humano não
deixam de ter transparência para o sobrenatural
e o sagrado.
Sobre a Resistência popular nos
primórdios da monarquia israelita reflete
Carlos A. Dreher. Sob enfoque são colocados o
período do reinado de Davi e o período
imediatamente posterior à morte de Salomão. Rei
e povo viviam uma relação contratual, em que
eram estabelecidos direitos e deveres de cada um.
Os conflitos surgiam quando e na medida em que
tais obrigações contratuais deixavam de ser
cumpridas. A insatisfação popular desembocou
com a ascensão de Roboão. O autor procura
aclarar tanto as causas, como também o
desenrolar das crises mencionadas, mostrando que
o povo de Israel não deixava impunes os
governantes que descumpriam com seus votos de
cidadãos.
No ensaio sobre O aspecto político da
hermenêutica, de Jorge Pixley, são
apresentados comentários sobre a dimensão
política da interpretação da Bíblia, com
consideração especial sobre três aspectos: 1)
o aspecto político na composição dos textos; 2)
a dimensão política na interpretação de
textos bíblicos, e 3) o aspecto político de
toda interpretação bíblica cristã.
Este número termina com a contribuição sobre
Aspectos da cidadania no movimento de Jesus
e nas primeiras comunidades apostólicas.
Seu autor, Uwe Wegner, oferece um estudo sobre as
bases neotestamentários da cidadania evangélica,
bem como sobre vários pressupostos para uma
participação efetiva na construção de uma
nova sociedade fraterna à luz de textos
sinóticos e paulinos.
ARTIGOS
Cristina Conti Proposta de estruturação
da carta de Tiago, 7
José Severino Croatto A carta de Tiago
como escrito sapiencial, 24
Francisco Reyes A. A lei do Reino: uma
exigências de vida plena - Uma aproximação
antropológica e simbólica à carta de Tiago, 43
Frank Pimentel Cobiça, resistência e
projeto alternativo - Uma aproximação
sociolingüística à carta de Tiago, 67
Néstor O. Míguez Ricos e pobres:
relações de clientela na carta de Tiago, 84
Paulo Nogueira A dignidade do pobre numa
sinagoga cristã da diáspora - Um exemplo de
seguimento da Torá no cristianismo primitivo, 97
Leif E. Vaage Cuidado com tua boca - A
palavra indicada, uma subjetividade alternativa e
a formação social dos primeiros cristãos
segundo Tiago, 108
Gabriel Cornelli - Os pés da esperança - O
poder mágico da oração em Tiago 5,13-18, 120
Pedro Lima Vasconcellos - Os indigentes e o reino:
Tiago e a recriação de sentenças de Jesus, 135
José Adriano Filho - O pobre e o rico em Tiago e
no Pastor de Hermas, 143
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